sexta-feira, 5 de junho de 2020

ARTIGO: O Mundo quer respirar


José Osmando de Araújo - Jornalista

 As explosões humanas que tomam conta do mundo neste momento, iniciando-se nos Estados Unidos, depois da morte covarde do homem negro George Floyd - asfixiado com o pé no pescoço por policial branco, sob os olhares de outros três comparsas igualmente da mesma cor de pele -, dão a indicação clara de que o mundo necessita urgentemente de algo fundamental: respirar.

Massas humanas majoritárias, mesmo em países considerados ricos e evoluídos, como os Estados Unidos, não mais suportam permanecer sufocadas diante da injustiça e da violência que as atingem a todo dia e a toda hora, sem que nada seja feito para conter a fúria gananciosa de uns poucos que têm a riqueza e o poder aumentados numa evolução espantosa.

 

O que vemos na origem desses movimentos que tomam contam das ruas, não é apenas a morte perversa de mais um negro por quem tem o dever de proteger suas vidas e sua integridade, mas uma deformada realidade estrutural e uma cultura institucional cega, que colocam pobres e negros em condições de extrema inferioridade, desigualdade e injustiça .

 

Mesmo tendo se transformado, pelo menos até o momento,  na maior potência econômica do planeta, e de se vangloriar de que representam a mais robusta democracia do mundo, os Estados Unidos não se livraram da aspereza nas suas relações raciais, como se nunca tivessem absorvido o fato de que a fundação dessa nação se deu à custa do trabalho escravo.

 

Ao contrário, mesmo tendo abolido a escravidão em 1º de Janeiro de 1963, depois de anos e anos de uma guerra civil que dizimou milhares e milhares de vidas, os norte-americanos brancos e seus domínios políticos e econômicos fizeram crescer muralhas de separação que alimentam desigualdade, divergências e ódios.

 

Ao fim da guerra, com os escravos formalmente libertos, até o Presidente Abraham Lincoln, a quem se credita o mérito de comandar esse processo institucionalmente libertário, teria feito uma recomendação aos ex-escravos : “voltem para suas origens, aqui não haverá espaço para vocês.”

 

É essa falta de espaço, agravada pelo aumento da riqueza predatória nas mãos de uns poucos, e pelo ódio nas relações das pessoas, de brancos e negros, negros e brancos, que tem alimentado esse interminável conflito. Conflito que se sustenta num aparato econômico, policial e de justiça incapazes de enxergar negros, pobres e imigrantes, e de dar-lhes condições para uma convivência pacífica, respeitosa, e permitindo-lhes direitos que façam aumentar suas capacidades.

 

Foi esse ódio que resultou no assassinato do magistral líder negro Martin  Luther King, alguém que ousou sonhar que, um dia,  isso pudesse mudar. Ele, que levou toda sua vida a lutar pelo fim das desigualdades e do racismo que fincaram uma profunda ruptura em sua pátria, certamente permanece no desassossego de saber que liberdade e igualdade estão longe de ser alcançadas.


Estava certo Martin Luther King, no seu sempre atual discurso ao final da grande marcha de 1963: “Não haverá tranquilidade nem sossego na América enquanto o negro não tiver garantidos os seus direitos de cidadão, enquanto não  chegar o radiante dia da justiça.”

 

Martin Luther King, necessariamente, está mais vivo do que nunca. O mundo clama pela vitória de suas lutas e de suas bandeiras.


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